Como é que se conta uma vida: uma vida vivida, a vivência diária, o que se espera da vida? Como não se deixar comover e envolver por aquilo que poderia ter sido, com o floreio que o tempo coloca nos fatos, nas faltas maquiadas em detalhes esquecidos ou sem importância?
"O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. O senhor avista meus cabelos brancos... Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo. O sertão me produz, depois me enguliu, depois me cuspiu do quente da boca... O senhor crê minha narração?"
(...)
"Como vou contar, e o senhor sentir em meu estado? O senhor sobrenasceu lá? O senhor mordeu aquilo? O senhor conheceu Diadorim, meu senhor?!... Ah, o senhor pensa que a morte é choro e sofisma – terra funda e ossos quietos... O senhor havia de conceber alguém aurorear de todo amor e morrer como só para um. O senhor devia de ver homens a mão-tente se matando a crer, com balas raivas! Ou a arte de um : ta-tá, tiro – e o outro vir na fumaça, de à-faca, de repelo: quando o que já defunto era quem mais matava... O senhor... Me dê um silêncio. Eu vou contar."
Obrigada!!



