
Fazendo ponte com o conto do Mártir, estamos usando o romance Grande Sertão: Veredas do autor brasileiro Guimarães Rosa. Quem conta a história é Riobaldo, primeira pessoa, numa narrativa não linear em um discurso a um interlocutor que nunca aparece, nunca mostra a sua voz.
Além dos temas tratados no livro fazerem paralelo com o que estamos pesquisando na peça, ele é, como disse a nossa diretora, o mártir ao contrário: há a questão de pseudônimos, de amores impossíveis, mas mais do que irmãos de fé, Riobaldo e Diadorim são amigos de armas: “De que jeito eu podia amar um homem, meu de natureza igual, macho em suas roupas e suas armas, espalhado rústico em suas ações?! Me franzi. Ele tinha a culpa? Eu tinha a culpa. (...) O sertão não tem janelas nem portas.”
Além disso, O Grande Sertão: Veredas é um livro que fala sobre o sertão, que não é um lugar físico, que é um lugar ao mesmo tempo universal e particular: “sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. (...) Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos (...) Sertão é o sozinho. (...) Sertão: é dentro da gente. (...) sertão é sem lugar”
Em outro trecho o narrador fala sobre a dificuldade da narrativa, de um tipo de narrativa pessoal que é a que estamos utilizando no nosso processo: “Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que tem certas coisas passadas - de fazer balancê, de se remexerem dos lugares.”
É um livro que fala sobre fé e amor: “Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver.” e “(...) amor só mente para dizer maior verdade. (...) quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade.” Fala sobre lembrança e infância: “eu, que o senhor já viu que tenho retentiva que não falta, recordo tudo da minha meninice. Boa, foi. Me lembro dela com agrado; mas sem saudade. Porque logo sufusa uma aragem dos acasos. Para trás, não há paz.”
O Grande Sertão: Veredas termina com a palavra “Travessia”, seguida pelo signo do infinito. Nada mais coerente para o nosso trabalho, para o que estamos buscando. Nada mais físico e espiritual do que essa palavra, que contem em si a experiência humana, o que foi, o que é e o que será.
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